Seu Fortunato, o meu pai,
era contador de histórias
era contador de histórias
Às vezes fico pensando
Como a vida é diferente
Do tempo da minha infância.
As lembranças vêm à mente
Deixando a lacrimejar-me
Os olhos, pois, mansamente.
Morando no Jerimum[i]
Com meus pais, numa casinha
De taipa, tenho a lembrança
Que todo dia, à tardinha,
Meu pai contava uma estória
Aqui pra sua filhinha.
E era sempre uma estória
Rimada e metrificada
Que ele trazia na cuca.
Uma estória decorada
De dragão, reinado, príncipe
E de princesa encantada.
Estórias que me levavam
A lugares encantados
E a sonhar com bonecas
De cabelinhos dourados
Pois a minha era de milho
Plantado ali nos roçados.
Tinha estórias de dragão,
De duques e de duquesas,
Rainhas más, que traiam
E maltratavam princesas
Mas que eram castigadas,
No fim, por suas vilezas.
Estórias de traição
Por ambição, por dinheiro,
Que trazia, no final,
Um castigo verdadeiro
Para aquele que traia.
Seguindo, assim, um roteiro.
Estórias de amor perfeito
Onde o par apaixonado,
Pela ambição dos pais
Via-se, pois, separado,
Mas que no final na estória
Terminavam lado a lado;
De animais que falavam
E pensavam como gente
Que tinham comportamento
Sempre mui reto e decente,
Dando-me lições em versos,
Tornando-me consciente;
Estórias de lobisomem,
De zumbi, alma penada,
Que me deixava, por vezes,
Com a pele arrepiada.
E pra aliviar um pouco,
Já contava uma fada.
Assim eu adormecia
No seu colo, a escutar
As estórias inventadas
Por aquele pai sem par,
Ou algumas que ele ouvira
E viera a decorar.
Pois nas feiras, no Domingo,
Coisa que sempre ocorria,
Ele comprava um cordel
Que o folheteiro vendia
Cantando no meio da feira,
E para casa trazia.
Do Pavão Misterioso;
Princesa da Pedra Fina;
O Menino dos Bodinhos;
Cancão de Fogo, o traquina,
E muitos outros, que lembro
E, sei, mudou minha sina.
E minha mãe, que aprendera
Ler sem qualquer professor,
Lia cantando o cordel,
E ele, bom receptor,
Já decorava e passava
Para a filha (eu) com amor.
Eu agradeço ao meu pai
Que, inda sendo analfabeto,
Não deixou de demonstrar
Pra com seus filhos o afeto
E a forma de demonstrá-lo
Foi do modo mais completo:
Cantando velhas modinhas
E cordéis metrificados;
Contados estórias diversas
De rainhas e reinados;
De bichinhos que falavam,
De castelos assombrados.
E pra que isso não morra,
Eu quero continuar
A contar belas estórias
Que possa vir a alegrar
A meninada que, agora,
Leva a vida, a toda hora,
Na Internet a navegar.
Rosa Regis
Natal/RN – 19.01.2012 – 00:36h

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